O monge e o escorpião

Na altura que escrevi este texto, andava a pensar porque razão havia uma tendência para que as pessoas agissem de modo quase estandardizado. Isso não podia, de modo algum, reflectir a sua verdadeira essência... então porque reflectiam para o exterior, algo que não condizia com o interior ? Tratar-se-ia de um acto de cobardia ? Por mero acaso “tropecei” na lenda do Monge e do Escorpião, que tinha a ver exactamente com a liberdade de SER …

Diz a lenda que um Monge e seus discípulos iam por uma estrada, quando viram um escorpião a ser arrastado pelas águas. O Monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e agarrou o bicho. Quando o trazia para fora, o escorpião picou-o e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi à margem e socorrendo-se de um ramo de árvore, entrou no rio, agarrou o escorpião e salvou-o. Os discípulos, que assistiam perplexos à cena, perguntaram-lhe então porque salvara o animal se, afinal de contas, ele tinha sido mau para ele ao picá-lo. O Monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu: "Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha."

 

Para além de gostar de metáforas, lembrei-me desta história porque ela encaixa que nem uma luva no tema da semana isto é, questiono-me acerca de quantas pessoas agem, realmente, segundo a sua essência ou de acordo com o que esperam delas? Mostrarmo-nos como somos é um risco brutal já que ficamos frágeis, sentimos medo perante a incerteza de continuarem a gostar de nós da mesma maneira depois de saberem os pontos fracos, ou os lados um pouco mais negros da nossa personalidade. Por isso, muitas vezes optamos por vestir a pele de um personagem agradável, o que passa frequentemente por tornarmo-nos iguais a todos os outros, ou esteticamente, ou ao nível do comportamento. Parece então que, numa época em que tudo é massificado, também as pessoas passaram a sê-lo. Importa esconder muito bem o nosso verdadeiro Eu e agir como a maioria, pois só assim é certo e sabido que existe uma plena aceitação. Há então que frequentar os lugares da moda, rir a propósito e despropósito, falar alto, andar no ginásio X, beber muito álcool, fumar mais ainda, trocar frequentemente de namorado, manter um amigo colorido … Porquê ? Porque este é uma espécie de embrulho que, aos olhos dos pares, significa ter “boa onda” e não ter “boa onda” é meio-caminho andado para ser-se excluído.

Marcar a diferença é uma opção que cai sempre mal aos outros e ser-se atípico, acaba também por constituir uma forma de auto-exclusão, frequentemente confundida com uma atitude de arrogância ou sintoma de Complexo de Superioridade. No entanto, nada disso corresponde exactamente à verdade. As pessoas ditas atípicas, apenas desejam agir de um modo em que a forma encaixe no conteúdo ou, mesmo que tenham de optar por uma máscara social, recusam-se a usar o mesmo tipo de máscara que todos os outros.  No fundo, trata-se de, num mundo repleto de escorpiões, querer a todo o custo comportar-se como um Monge ! Nada mais do que isso.

 

Texto publicado na revista Flash! em Setembro de 2005

Crueldade 2

Por falar em crueldade, sabem que faz hoje 46 anos que se deu a explosão da bomba atómica sobre Hiroshima ? A bomba matou logo 80.000 seres humanos e deixou os restantes habitantes da cidade, doentes para o resto da vida (estima-se que tenham morrido mais 160.000 pessoas com os efeitos da bomba). Os que ainda sobrevivem têm tido uma vida de sofrimento físico e mental.


Os sobreviventes chamam-se hibakusha (pessoas afectadas pela bomba) e neste link
http://www.theworld.org/worldfeature/hiroshima/index.shtml   falam na primeira pessoa sobre os acontecimentos daquele dia horrível. Muitos afirmam que é a primeira vez que estão a falar do assunto em público e até com as suas próprias famílias e amigos, porque os sobreviventes da bomba atómica sempre foram descriminados .  É sem dúvida um excelente documento (audio) que aconselho a quem tenha a possibilidade de ouvir. O primeiro depoimento  é impressionante...

Crueldade 1

 

Não nasceu “Gisberta” , mas foi o nome que escolheu, quando um dia sentiu que o seu exterior não coincidia com o interior . Devemos censurá-la(o) por isso ? Penso que não. Certamente a vida  não lhe sorriu muitas vezes e o seu encontro com a morte foi dos mais trágicos .

 

Por formação (pessoal e profissional), respeito o ser humano, seja qual for a sua cor, credo ou sexo, portanto pouco me importa se Gisberta era um travesti, se tinha SIDA, se era prostituta e toxicodependente… para mim, o que interessa verdadeiramente é que foi morta de uma maneira cruel, por um grupo de adolescentes que viviam numa instituição.

 

A questão que coloco é muito simples: que instituição é esta que forma sociopatas? Que não lhes transmitiu valores morais,  como o respeito que devemos ter pelos outros seres vivos (animais ou humanos)?

 

Claro que posso entender/argumentar que também estes adolescentes foram vitimas de exclusão e vivem sem família de suporte … pois … mas o que desconfio é que nesta instituição (e noutras que por aí existem) apenas se preocupam em ensinar-lhes uma profissão ou instruí-los academicamente. Esquecem-se que pessoas que nascem e crescem sem carinho, sem um afago, sem um beijo, um abraço … só se podem transformar em sociopatas porque, eles próprios, não são tratados como humanos…

  




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