O primeiro filme que eu vi, (se não me falha a memória), foi em 1987. Chamava-se “Mulheres à beira de um ataque de nervos” e contava com as magníficas interpretações de Carmen Maura e António Banderas . Desde logo me tornei fã incondicional das comédias surrealistas, personagens bizarras e temas polémicos.
A obra tem-se tornado cada vez mais intimista, abordando questões como a pedofilia (em “Má educação”) ou o incesto e a morte, em “Volver”. O último filme, é uma incursão pelo universo feminino e resulta das memórias do próprio cineasta. Não é por acaso que a acção se desenrola na sua terra natal – La Mancha. Segundo as palavras de Almodóvar «'Volver' é uma homenagem aos rituais sociais praticados pelas pessoas da minha aldeia em relação à morte e aos mortos». Aliás, a cena do velório de Paula, tia das protagonistas, é absolutamente genial !

Três gerações de mulheres sobrevivem ao vento quente, ao fogo, à loucura, à superstição, e até mesmo à morte, à base da solidariedade, das mentiras e de uma energia sem limites. São elas Raimunda (Penélope Cruz) casada com um operário desempregado e uma filha adolescente (Yohana Cobo), Sole (Lola Dueñas), a sua irmã, que instalou em casa um cabeleireiro clandestino , e a mãe de ambas (Carmen Maura), morta num incêndio, juntamente com o marido... é esta a base da história que se vai desenrolando em torno dos segredos familiares partilhados, traições e, sobretudo, de um afecto sem limites que une todas aquelas mulheres.
Para além de tudo, a banda sonora não é um factor deixado ao acaso. A canção “Volver”, um clássico de Carlos Gardel, interpretada por Estrella Morente (e que no filme parece ser cantada por Penélope Cruz) é um dos momentos mais fortes. De facto aquela música toca directamente os nossos corações e desperta-nos sentimentos muito profundos, ou não se tratasse de um tango.
Resta dizer que o filme foi distinguido em Cannes, com o prémio de melhor argumento. As cinco actrizes foram também premiadas ex-aequo pela interpretação. A Associação da Imprensa Estrangeira de Itália atribuiu-lhe o Globo de Ouro para o melhor filme europeu. Na minha opinião, merece TODOS os prémios. Imperdível ! ![]()
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Ps: se quiserem saber mais, vão ao site oficial www.volver-lapelicula.com (aproveitem para ouvir a banda sonora ...)

Na escola onde trabalho, existem alguns meninos negros. De vez em quando vou à sala onde eles estão e sento-me a observar. É muito bonito vermos como crianças brancas e negras interagem, sem quaisquer problemas. Para eles é perfeitamente natural que assim seja. Estes meninos estão muito bem integrados e nenhum dos coleguinhas levantou o problema da cor da pele.
Noutra sala, com alunos um pouco mais velhos, existe uma menina que nasceu com uma deformação genética. A deformação é perfeitamente visível porque lhe atinge a face e também as mãos. A princípio houve algum receio por parte dos pais das outras crianças. Tinham medo que se tratasse de alguma maleita que pudesse contagiar os filhos. A situação foi clarificada e desdramatizada, a ponto de se dissiparem as dúvidas e os medos. Existem brincadeiras que lhe estão vedadas, porque ela não tem a mesma agilidade dos outros meninos contudo, em momento algum, ela ficou esquecida nas brincadeiras. A criatividade das crianças é algo enternecedor, e sempre encontram uma maneira de a integrar. Estou certa que aquela menina encontrou o seu caminho e passa momentos felizes quando está na escola. Tudo isto serve para vos dizer, que a intolerância à diferença é algo que não nasce connosco, mas que é fruto da educação. As crianças são extremamente solidárias e tolerantes. É raro um menino ser alvo de racismo ou de xenofobia por parte dos seus pares. A intolerância sente-se mais a outros níveis. Por exemplo, quando um colega é agressivo ou mal-educado, é fácil ser colocado de lado. Tal não acontece devido a ser de outra raça ou por ser pobre.
A este propósito recordo uma música do Gabriel – O Pensador, em que o músico relata a sua infância e como, (apesar de ser filho de uma família abastada), gostava de se misturar com os meninos das favelas. Esse contacto fez com que se tornasse mais solidário e respeitador das diferenças, porque “a amizade não tem classe nem cor”. Um dos factores que influencia bastante a intolerância tem a ver com o desconhecimento. Tendemos a rejeitar tudo o que desconhecemos e até a agir com algum receio. Ainda está bem presente na memória de todos, o caso dos meninos de Fronteira. Nessa altura pouco ou nada sabíamos sobre a SIDA, portanto a reacção foi de pânico. Essas crianças acabaram por se tornar grandes vítimas da ignorância do povo. Certo é que todos os dias acontecem situações do mesmo tipo.
Há dias, num programa de televisão, um menino com uma anomalia genética mostrava a sua dor face à exclusão de que é alvo por parte dos colegas de escola. Era um relato sentido, com uma dor visivelmente presente. O problema dele não era contagioso nem transmissível de modo algum mas, mesmo assim, as pessoas tendiam a afastar-se. Na escola os outros meninos não brincavam com ele porque os pais não deixavam … Como é possível que nós, seres humanos, sejamos capazes de tratar mal alguém só porque é diferente de nós? Será que a diferença nos perturba tanto?
A sociedade tende cada vez mais para a massificação. Temos de vestir todos nas mesmas lojas, frequentar os mesmos ginásios, jantar nos mesmos locais para que sejamos considerados “normais”. É assustador pensar, até onde irá esta corrente que defende que ser igual é que é bom. Aliás, as coisas estão a assumir proporções tais, que há dias não deixei de esboçar um sorriso ao ouvir dizer, também num programa de TV , que ser loira estava fora de moda !!!! Isto porque, na cerimónia dos Óscares de Hollywood, várias actrizes loiras tinham aparecido morenas. Bom, então é suposto que sejamos todos morenos/as, porque só assim estaremos na moda… portanto iguais… portanto normais… que engraçado… será que daqui a anos, uma criança loira vai ser alvo de exclusão na escola, por parte dos coleguinhas morenos? Já nada me surpreende…
Artigo publicado na revista Flash! em Abril de 2005
Já muitas vezes se afirmou que o mundo jamais foi o mesmo … concordo inteiramente.

Esta é a imagem que mais me comoveu e chocou, já que se trata da fotografia de alguém que teve de escolher entre morrer carbonizado, ou atirar-se do edifício … aliás, uma das coisas que os bombeiros do tal documentário referiam, era que ainda tinham bem presente o barulho que os corpos faziam ao se estatelarem no chão. Certo é que, a
maior parte das pessoas que viveram esta tragédia (bombeiros, familiares, sobreviventes, …) nunca mais voltará a ter uma vida dita "normal". As sequelas psicológicas são irreversíveis, ou seja, o tempo até poderá suavizá-las, mas não as apagará.
No local onde existiam as torres, erguem-se agora dois holofotes fortíssimos que incidem directamente no céu. Acho uma imagem lindíssima e carregada de simbolismo.
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