FIEL OU INFIEL ?

 

Um destes dias (aproveitando uma pausa no trabalho), decidi refastelar-me no sofá e ver um pouco de televisão (coisa que não fazia hà meses). Zap para aqui, zap para acolá, fui dar ao programa “Fiel ou infiel” e aí detive-me, plena de incredulidade.

 

Pior é MESMO impossível! O décor é berrante, com uma menina ao fundo (de mini saia, tipo cinto, que ali permanece em pé o programa inteiro sem fazer absolutamente nada) e uma plateia indescritível de pessoas que gritam a plenos pulmões, insultam, ditam sentenças, como se de um tribunal popular se tratasse. O apresentador é um tipo brasileiro (um tal de João Kléber) que incita a plateia a insurgir-se contra os “concorrentes”, ao mesmo tempo que mantém um riso cínico, a lembrar uma hiena. Depois do circo estar todo montado, de já ter havido possibilidade de se insultarem mutuamente e já terem havido até agressões físicas, o apresentador remata o caso com uma palestra moralista, sobre "a verdadeira essência do amor  que deve ultrapassar todos os problemas".  Uma lástima!

 

Para além disto tudo, existem claro está - os concorrentes. Um elemento decide testar o outro quanto à sua capacidade de resistência a uma cena de sedução. Para isso contam com a participação de sedutoras e sedutores. Curiosamente, o sedutor é bastante mais comedido nas suas aproximações. Por seu turno as sedutoras vão até ao limite e pouco falta para que o programa resvale do erótico para o pornográfico. Cada programa apresenta dois casos (um feminino e outro masculino) e, naquele que eu vi, ambos sucumbiram à tentação.

 

No entanto, gostaria de deixar aqui uma dúvida que na altura me assaltou. As pessoas que estão a  ser testadas vão ali concorrer a um emprego (este é o isco que as leva ao sedutor). É-lhes primeiro oferecido um chorudo ordenado e só depois a cena de sedução se desenrola. Face a isto, parecem-me haver factores que enviesam por completo a questão da infidelidade. Para mim, essa questão é apenas um ponto e secundário. O que está mais presente é a velha questão de cada pessoa ter um preço. Neste caso, as pessoas parecem dispostas a tudo, ou seja, os valores materiais sobrepõem-se aos valores morais (como a fidelidade). Por outro lado, o que leva alguém a querer testar o/a parceiro/a ? Possivelmente a relação está já no fim da linha e este é apenas a gota d’água, ou o motivo que precisam para justificar a ruptura. Outra coisa extremamente curiosa, é o facto de, durante a cena de sedução, ambos os concorrentes dizerem mal dos parceiros. As críticas situam-se a nível do desempenho sexual e da imagem física. Como dizia o outro … não havia nexexidade …  ...   bom, para a próxima vou optar por um DVD ...

A MORTE E A SAUDADE

 

 

Este texto foi escrito em memória do meu querido irmão, e publicado exactamente no dia em que se comemorava mais um ano da sua morte (6 de Outubro). Passaram-se 22 anos e posso confirmar que o tempo é mesmo uma dimensão psicológica …

 

Ao falar na morte, falamos inevitavelmente na saudade de alguém que partiu. As horas parecem dias, os dias parecem semanas e, subitamente, ao olharmos para o calendário, constatamos que se passaram longos anos. Manteve-se inalterável a lembrança do perfume, do gesto, do sorriso. O tempo não apaga, mas aconchega a dor. Arranja-lhe um cantinho ao fundo do peito e, nesse cantinho, a recordação permanece viva, iluminada, até ao fim da nossa vida. De vez em quando, tem que se arranjar mais espaço para que consigam acomodar outras dores. Desarruma-se tudo, volta-se a mexer em todo o passado que se esconde na recordação de um desgosto vivido, de uma perda sofrida.

Perante a morte sentimo-nos, de facto, infinitamente pequenos e tudo se relativiza. Que interessam os problemas profissionais? Que importa não podermos ir ao Brasil no final do ano?

O que separa a vida da morte, não passa de uma frágil linha que a todo o momento ameaça quebrar-se. Felizmente, é raro pensarmos na nossa própria morte. Quando sucede é porque sofremos a perda de alguém e esse facto acorda-nos a angústia. Por isso vivemos o dia-a-dia como se fossemos imortais, como se nada nos pudesse acontecer. Conduzimos sob efeito de álcool, negligenciamos campanhas que pretendem ser assustadoras, porque nada disso nos toca, só acontece aos outros. Atiramos para longe essa realidade, mas o efeito boomerang faz com que um dia sejamos esmagados por ela.

Creio que não existe maior dor, que a da perda. Por muito que queiramos arranjar airbags emocionais, face à perda, o único caminho é viver o luto. Entristecemo-nos, choramos, achamos que a vida perdeu todo o sentido.

Cada pessoa vive a morte à sua maneira mas a dor não tem, na sua essência, grandes diferenças. A manifestação da dor é que difere, sendo que o sofrimento silencioso pode ser mais penoso já que socialmente é mais aceitável que a pessoa expanda a sua dor de um modo visível. Quantas vezes ouvimos dizer coisas dos género “coitada como ela chorava, via-se mesmo que gostava muito dele”... como se a dor se medisse em lágrimas! A dor pode ser vivida no silêncio, como algo só nosso que não queiramos partilhar com mais ninguém.

Outras pessoas, perante a notícia da morte de outros (sobretudo quando falamos de alguém muito próximo como filhos ou pais) dizem “eu não aguentava” como se, de algum modo, apontassem o dedo a todos aqueles que perante essas perdas conseguiram  arranjar forças para continuar a viver. Costumo perguntar-lhes que alternativa teriam, certa que um ser humano aguenta a maior parte dos sofrimentos, sobrevive à maiores agruras que a vida lhe reserva. Claro que alguns desistem, ficam pelo caminho porque entram num processo de luto patológico, ou de autodestruição, já que a sua estrutura psicológica não era suficientemente equilibrada. Mas essas são as excepções, não a regra. 

Certo é que um dia a ferida transforma-se em cicatriz. Aprendemos a conviver com a dor. Voltamos a conseguir sorrir e, com frequência, passamos a dar mais valor às pequenas coisas. Pensamos com carinho nos amigos que nos ajudaram a ultrapassar os momentos difíceis. Espantamo-nos com a frieza de alguns, que considerávamos próximos, e com a delicadeza de outros que nem sequer pensávamos poder contar. A morte tem destas coisas. A vida dá-nos uma estalada e, das duas uma, ou nos tornamos mais fortes (apesar das cicatrizes emocionais), ou sucumbimos perante ela. Não existe terceira hipótese.

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Outubro de 2004

 

 

PORQUÊ ??????

 

 

 

Ao fim da tarde de ontem, ligou-me uma jornalista da revista Visão no sentido de me pedir um comentário sobre o caso do ataque à escola amish. Confesso-vos que ainda não tinha  sabido de nada, mas pedi uns minutos e apressei-me a ligar a televisão no canal da CNN.

O que posso dizer-vos sobre isso ? O que leva um homem de 32 anos, com uma vida aparentemente estruturada, a cometer uma barbárie deste tipo ? É difícil saber. Segundo o bilhete que ele deixou, tudo se deve a um trauma decorrente de um episódio ocorrido há 20 anos atrás … e porquê agora ? E porquê contra pessoas tão pacíficas como os amish ? E porquê contra as meninas ? São dúvidas que me assaltam mas para as quais não tenho qualquer resposta.

Uma coisa para mim é clara – um acto deste tipo só pode ser perpetrado por um psicopata. Alguém que se manteve num aparente equilíbrio psicológico durante 32 anos e que, por um motivo que desconhecemos, passa ao acto num determinado momento. É que, quer queiramos quer não,  a linha que nos separa da insanidade é muito ténue...

No que respeita às criancinhas (entre os 6 e os 14 anos de idade), o trauma de ter sobrevivido/assistido à execução das colegas é algo que dificilmente será ultrapassado. É de esperar que surjam crises agudas de pós stress traumático mas, se forem convenientemente acompanhadas, pode ser que no futuro se reequilibrem a nível emocional. A comunidade amish é muito fechada, portanto não sei muito bem como vão conseguir lidar com uma situação destas e que recursos (internos e externos) possuem para a ultrapassar positivamente.

 

Para quem não está familiarizado com os amish, vou  falar-vos um pouco deles.  Quem viu o filme "A Testemunha" com Harrison Ford não vai ter dificuldade em lembrar-se dos amish: os homens usam fatos e chapéus pretos, as mulheres têm a cabeça coberta por um capuz escuro. Logo de manhã, dezenas e dezenas de crianças amish, vestidas da mesma maneira , fazem o caminho a pé para a escola. Escolas amish, claro, já que, seguindo mais uma vez a tradição, não podem frequentar escolas ditas “normais”.

 

 

 

Para eles, a educação significa aprender não mais que o necessário para ingressar na vida adulta. Na prática, traduz-se no básico das línguas inglesa e alemã, religião e matemática suficiente para ajudar no comércio, tudo condensado em oito anos. Nenhum membro da comunidade completa os estudos ou vai para a universidade. Para conseguir esse direito nos EUA, foi preciso obter uma decisão da Suprema Corte Americana de 1972 que permitiu que as crianças amish, interrompam os estudo antes dos 16 anos. O caminho da escola também revela outra peculiaridade: não há crianças de bicicletas, por uma razão tão simples como a proibição do uso de pneus em qualquer veículo amish.

Vivem sem telefone, energia eléctrica (não têm televisão, ou rádio) e seguem as mesmas tradições e crenças que cultivam desde o século XVI.

Pacifistas, os homens não vão à tropa,  usam barba depois do casamento (nunca bigode porque para eles é um símbolo militar). Todos os fatos pretos têm o nome do dono bordado na lapela, já que não há outra maneira de os distinguir entre si quando, por exemplo, são deixados na porta da igreja. As mulheres usam vestidos pretos com aventais, sem estampas e o cabelo preso (sempre coberto com um capuz ).

 

COMUNICAR

 

Escrevi este texto pouco tempo  após   ter sido comemorado o dia dos namorados.

Tinha ido jantar fora, e fez-me confusão observar como alguns casais conseguiam passar todo o jantar sem falar um com o outro: alguns usavam o telemóvel, outros enviavam SMS e outros ainda limitavam-se a comer mergulhados no mais absoluto silêncio …

 

                        

 

Vivemos na Era da Comunicação. Ao olharmos para a nossa volta vemos os múltiplos apelos que nos são feitos, quer em termos de publicidade, quer ao nível dos media e, neste contexto, parece contraditório que se possa afirmar que cada vez as pessoas comunicam de um modo mais ineficaz. Devo dizer que, uma coisa que me constrange é observar o comportamento de alguns casais nos restaurantes. Vejo que em muitos casos, são escassas as palavras que trocam, desapareceram por completo os sorrisos cúmplices, o toque das mãos ... parece que sobre eles se abateu um véu pesado de silêncio.

Dizem os peritos que todo o comportamento é comunicação, pelo que é impossível não comunicar. O que é que este silêncio significa ? Será que as pessoas o interpretam de modo correcto ? De facto, o silêncio constitui um meio essencial de comunicação, pelo que não é de estranhar que faça parte da formação do psicólogo clínico aprender a interpretar, e também a aguentar o silêncio do cliente. Posso dizer-vos que não é tarefa fácil, estar alguns minutos perante alguém cuja forma de nos comunicar o seu desconforto é através feita dessa forma ! Em contexto terapêutico existe toda uma panóplia de estratégias que se podem usar para desbloquear a situação mas, nas relações interpessoais as coisas não se passam da mesma forma.

O silêncio tem sempre muitas interpretações e, face a uma dificuldade em explicitar o que se passa na realidade, cada um acaba por escolher a interpretação que melhor se adequa ao momento. Assim, pode revelar-se uma cumplicidade partilhada através do silêncio e do olhar, pode dever-se a hostilidade, zanga ou até afastamento. O que me causa alguma curiosidade é saber se, estas pessoas que passam jantares inteiros mergulhadas no mais completo silêncio e depois vão para um local nocturno (onde a comunicação também se faz de um modo bastante deficitário), alguma vez se olham mutuamente nos olhos e assumem que partilham apenas a solidão. Será ? Tenho algumas dúvidas. Certo é que a melhoria das relações passa, obrigatoriamente, por uma optimização da forma de comunicar. E não comunicamos só verbalmente, sendo que noventa por cento (!) das vezes não o fazemos através de palavras. Não sei se já se aperceberam que o uso do espaço é ele próprio uma forma de comunicação. Quando estamos com uma pessoa com a qual mantemos uma relação de alguma intimidade, tendemos a aproximar-nos mais, caso assim não seja, temos tendência para nos afastarmos. A postura corporal é também muito reveladora. Num jantar de namorados, o casal tende a inclinar-se para a frente e a descruzar os braços como forma de mostrar ao outro que está disponível para ele. Além disso, existe também a questão do contacto físico, aspecto fundamental em qualquer relação afectiva. O toque, o beijo, o abraço, o carinho a propósito e despropósito, são ingredientes imprescindíveis.

O que se passa é que muitos homens se mostram pouco atentos aos sinais e, por sua vez, as mulheres insistem em acreditar que o parceiro tem de descobrir por si próprio o que vai na alma dela. Um erro crasso que mina muitas relações. É importante ter bem claro que os outros não conseguem ler o nosso pensamento. Aprendem a lidar connosco e a saber o que desejamos, se houver da nossa parte todo um trabalho nesse sentido. Não vale de nada optar pelo silêncio, porque se podem criar grandes mal entendidos. Saber dizer as coisas na hora certa e de um modo assertivo é único caminho para uma relação gratificante.

artigo publicado na revista FLASH! em Fevereiro de 2004




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