ENQUANTO AÍ ESTIVERES ...

 

 

Na altura que escrevi este texto, andava a pensar sobre a ingratidão humana, aquela que faz com que muita gente despreze os amigos e valorize os conhecidos…

 

 

 

Estranho funcionamento o do ser humano, que tende a valorizar o que não tem, ao invés de acarinhar o que tem. É assim, não há volta a dar. Quem nos apoia, quem nos bate palmas nas horas de triunfo e felicidade, quem está sempre atento e sofre com as nossas dores é, com alguma frequência, colocado numa prateleira. É algo conquistado e que não precisa de grande investimento afectivo... “coisifica-se” a pessoa, encara-se como um objecto adquirido e que, por isso mesmo, não vai sair daquele cantinho que reservámos para ele. Vivemos depois, descontraidamente, à sombra dessa ilusão, que nos traz uma certa paz de espírito. Temos a certeza de que aquela pessoa vai nutrir por nós sempre o mesmo afecto, vai estar sempre ali em todos os momentos mas... em troca de quê? É que, frequentemente o retorno é muito pouco, ou quase nada. Torna-se uma relação egoísta, egocêntrica, em que os sentimentos, necessidades e desejos do outro, desaparecem por inteiro. De vez em quando existe uma atitude que, à primeira vista pode parecer de atenção, sob a forma de um convite, um telefonema para saber se está bem, mas, no fundo no fundo, acaba por não ser mais do que um teste, de forma a perceber se ainda lá está (como se fossemos limpar o pó do objecto).

Facto é que existem pessoas que mantêm este tipo de relações, talvez porque a autoestima escasseia e consideram que sempre é melhor viver “de migalhas do que poder passar fome”. Outras, passado algum tempo, optam por saltar fora, porque nada disto as gratifica, aliás muito pelo contrário, é uma constante desvalorização. Qualquer tipo de relação tem ser de partilha, caso contrário frustra um dos parceiros e destrói-se.

Claro que, na teoria, todos somos de opinião que a verdadeira essência da amizade/amor assenta no dar sem esperar retorno. Pois é... mas essa é a teoria! Na prática, somos humanos e desejamos ser alvo de atenções e carinhos, na exacta medida que damos carinhos e prestamos atenções. Gostamos que se interessem por nós, que partilhem as nossas alegrias e sucessos, que vibrem com os projectos em curso, que nos façam sentir queridos e importantes pelo que somos e não, apenas, pelo que podemos dar. Quando sentimos que nada disso acontece, só restam duas hipóteses, continuar a alimentar o Ego do outro, ou então saltar do cantinho da prateleira de onde nos colocou. Ficará então o espaço vazio e, na ausência, é que muitas vezes acabam por nos dar o devido valor, ou perceber/sentir que, afinal de contas, era importante o papel que desempenhávamos. Resta saber se depois não é tarde demais!

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Setembro de 2005




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