CHORAR UM DESAPARECIDO

 

Este artigo foi escrito para ser publicado no Dia Internacional dos Desaparecidos mas por motivos vários, acabou por sair algumas semanas depois. A este propósito, lembro-me de uma aula de mestrado em que o Sr. Professor Doutor António Coimbra de Matos se emocionou ao falar sobre o assunto. De facto, até para um psicanalista é dificil gerir a angústia subjacente à incerteza...

 

 

 

Comemorou-se recentemente o Dia Internacional dos Desaparecidos. Os noticiários deram-nos conta das inúmeras crianças, jovens e mesmo adultos, que um dia desapareceram sem deixar qualquer rasto. Confesso que sou bastante sensível a esta temática, porque considero que a dor do desaparecimento de alguém que amamos, vai muito para além do que se sente perante a morte.

É sabido que o ser humano possui rituais de morte, que variam consoante a cultura e a sociedade em que se está inserido. Na nossa sociedade, é suposto velar-se o morto e depois proceder-se ao enterro do corpo. Assim sendo, passa a existir um local de culto. A família e amigos, sempre que sentem necessidade, acorrem ao cemitério e sabem que é ali a ultima morada, o sítio onde podem chorar e materializar o carinho e a saudade em forma de flores. Este processo, embora doloroso, facilita o luto e permite que, pouco a pouco, tudo se arrume internamente. Tratando-se de um desaparecimento, nada disto é possível porque não existe um corpo, portanto todo o processo de luto fica desde logo comprometido.

Consegue-se fazer alguma analogia com as pessoas que foram vítimas de acidentes graves e que, embora sobrevivessem, estiveram algum tempo em coma. Algumas, depois de voltarem à consciência, constatam que do acidente do qual foram vitimas, resultaram mortes. Certo é que nada disso lhes parece real, uma vez que houve um corte/salto no tempo. O luto nesses casos é, também, complicado. Na maior parte das vezes desejam ir à campa dos amigos assim que saem do hospital, mas continuam incrédulos. Defendem-se inconscientemente e constroem uma história paralela, em que acreditam que tudo não passa de um engano e, na verdade, o amigo foi de viagem e um dia voltará a aparecer. Passa a existir, por assim dizer, um final em aberto, como se passa no caso dos desaparecidos.

Não consigo imaginar o que se passa na cabeça das famílias que tiveram o azar de uma situação destas lhes bater à porta... imagino que seja igual ou superior à destruição exterior, pois essa é bem visível, quer a nível físico, quer a nível familiar. O exemplo máximo é o da mãe do menino (agora já adulto) Rui Pedro. É impossível não ser tocado pela dor daquela senhora, daquela MÃE, que já revirou literalmente o mundo à procura do filho (inclusivamente, o actor Nuno Melo, referiu-o ao receber o Globo de Ouro). É algo que nos toca fundo, que abre uma ferida no coração e para a qual não há qualquer remédio. Existirá dor maior? Acho que não... nem a da morte...

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Maio de 2006

 




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