O FRACASSO

 

Muitos crescem sem lhes ter sido ensinado que o  fracasso faz parte da vida e, sobretudo, que é preciso aprender a encarar os erros não como uma catástrofe pessoal, mas sim como um meio de aperfeiçoamento e de aprendizagem ... 

 

                                    

 

Vivemos numa sociedade que, desde muito cedo, nos motiva para o sucesso esquecendo-se de que o fracasso também existe e, por isso mesmo, tem de ser contornado. Por exemplo, muitos são os pais que estimulam crianças de três anos a saberem escrever o nome e identificar letras. As aptidões dos filhos transformam-se em tema central das conversas nos jantares de amigos e as comparações sucedem-se. Tudo é acelerado e esquecem-se que as crianças necessitam de tempo para se tornarem adultos, tempo que quando é ocupado pelo jogo não é um desperdício, muito pelo contrário. O jogo é algo muito sério e prepara para a vida. Através do jogo as crianças imitam o mundo adulto e ensaiam diversos papéis sociais. O desenho é, também, um instrumento vital para que o desenvolvimento se faça de um modo harmonioso. Os mais pequenos transportam para o papel o que lhes vai na alma. Ao desenharem estão não só a aperfeiçoar aspectos ligados à destreza manual, como também a dar largas à imaginação e a desabafar as angústias.

Certo é que, apesar de os momentos de lazer das crianças terem de ser vistos como preparação para a vida, muitos educadores optam por substitui-los por aspectos ligados directamente a aspectos escolares. Tudo isto tem a ver com o desejo de o filho vir a ser bom aluno, desejavelmente o melhor da turma, ainda que uma coisa não implique necessariamente a outra. Uma criança cuja criatividade seja castrada, está condenada ao insucesso, mais que não seja a nível social.

Na realidade, ser um fracassado constitui um dos estigmas mais negativos que se podem atribuir a alguém. Nem a família, nem a escola nos prepara para assumir as derrotas e digerir os fracassos sem traumas que amputem a capacidade de reacção e afectem a autoestima. Esta atitude social, provoca uma dificuldade em reconhecer falhas e limitações. Qualquer cientista está ciente que só se avança com o erro e à semelhança do que se passa numa qualquer experiência científica, também o ser humano aprende através do binómio tentativa-erro. Contudo, o que muitas vezes se passa é que perante o erro seguimos caminho sem aceitar o fracasso. São inúmeras as pessoas que desistem dos estudos, ou que terminam cursos que nunca gostaram, sem terem coragem de admitir que falharam na escolha, o que as transforma irremediavelmente em profissionais frustrados. A sensação de fracasso reside, fundamentalmente, na distância que separa o Ego do Ideal do Ego. Não querendo entrar muito por noções complicadas da psicologia, digamos que, uma coisa é o que somos, outra o que pensamos ser. É extremamente difícil distanciarmo-nos o suficiente de nós próprios a ponto de conseguirmos ter uma noção clara dos nossos limites. Só quando atingimos um patamar de maturidade é que somos capazes e ver (geralmente com amargura), que não somos os mais bonitos, os mais inteligentes, nem tampouco os mais bem aceites socialmente. Mas, apesar disso continuamos a ser únicos, especiais e com capacidades para ir mais além. Melhorar é de facto um bom aliciante para a vida, mas convém que se estabeleçam metas razoáveis, que estejam ao nosso alcance porque de contrário surge a frustração com a qual não aprendemos a lidar.

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Outubro de 2004




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