AMAR EM DUPLICADO

 

 

 

Acredito que todos nós temos um ideal de pessoa com quem gostaríamos de partilhar os dias. Alguns, ao longo da vida vão percebendo que o ideal não passa disso mesmo e que encaixá-lo na realidade não se afigura uma tarefa fácil. Então, de toda aquela lista mental de atributos que tinham inicialmente delineado, acabam por retirar uns quantos e reduzir a exigência o que, de certo modo, significa adequarem-se à realidade que os cerca. Outros, porém, continuam a procurar incessantemente preencher todos esses itens. Então, das duas uma, ou acabam invariavelmente sozinhos, ou então optam por manter relações afectivas com mais do que uma pessoa, em simultâneo.

Quando questionados acerca do motivo por que o fazem, referem que encontram uns atributos num e outros noutro o que faz, grosso modo, que os dois se completem. Pois … mas será que isso é gostar de alguém? Por graça, costumo dizer a essas pessoas, que a solução é livrarem-se dos dois e optarem por um terceiro. Mas, se esta minha observação, poderia à partida parecer absurda tem algum fundamento. Amar alguém é uma tarefa árdua que implica um investimento afectivo constante.

Um amor não nasce e cresce espontaneamente. A paixão sim! O estado de paixão é abrupto, por isso mesmo é temporário. O amor constrói-se. Ora, como é possível que haja energia suficiente para construir dois amores, ao mesmo tempo, se um já dá tanto trabalho? Assim, quem diz amar duas pessoas é porque não ama realmente nenhuma delas. E quando digo “amar” é no sentido de casal porque, outros tipos de amor podem-se multiplicar as vezes que quisermos. Amamos os nossos pais, os nossos filhos, os nossos amigos … e o afecto chega para todos mas, no que se refere a uma relação de casal, as coisas são completamente distintas.

Gostar de retalhos de pessoas não significa amar essas pessoas. É, isso sim, uma maneira muito simples de não nos envolvermos. Aliás, quando amamos alguém, tendemos a superar-lhe os defeitos. Digo superar, porque passado o estado de paixão, as ilusões desaparecem e, por fim, conseguimos ver que o nosso objecto de amor tem defeitos e virtudes, mas, já o povo costuma dizer que “quem o feio ama, bonito lhe parece” portanto, não é isso que provoca o afastamento. Há um esforço de adaptação que sendo progressivo, só aumenta a cumplicidade entre o casal. Esse caminho é logo e muitas vezes tortuoso. No final, podemos até ter consciência que aquela não é a nossa alma-gémea, ou a metade da laranja (será que existe mesmo?), mas alguém que aceitou fazer o percurso connosco e investiu todas as suas energias nesse projecto. E não será isso  o verdadeiro amor?

 

texto publicado na revista FLASH! em Janeiro de 2006




[ ver mensagens anteriores ]


 


Adicione meu Blog
aos seus favoritos!




Visitante número:

 

Design Personalizado