AMERICANICES

 

Num daqueles momentos em que somos assaltados por uma súbita vontade de-não-fazer-absolutamente-nada-de-útil-à-humanidade, decidi esticar-me ao comprido no sofá e fazer zapping. Eis senão quando, encontro uma verdadeira pérola (mais uma) da nossa televisão por cabo – o programa do Dr. Phil (na Sic Mulher)

A estrutura do programa é em tudo parecida com a dos reallity shows – existe uma pessoa que vai lá contar o problema que a aflige e depois o Dr. aconselha-a, perante um publico que assiste ao vivo. O programa que eu vi apresentou dois casos. O primeiro tratava-se de uma jovem que ia contar o seu segredo, ou seja, que tinha sido violada. A segunda prendia-se com uma situação de “jogo patológico”.

Segundo o site do autor, o Dr. Phil é formado em psicologia clínica pela Universidade do Texas na área da psicologia cognitiva. De facto, no seu discurso percebe-se que domina os conceitos, disso não tenho a menor dúvida. Outro ponto importante é que serve para alertar a população geral em relação a estas questões, favorecendo que pessoas que sofrem de patologias semelhantes, procurem uma ajuda especializada. A postura do Dr. Phil também é (no geral) adequada, ainda que, por exemplo, na segunda situação ele tivesse optado por uma abordagem bastante assertiva/agressiva, que não achei de todo a mais adaptada (até porque aumenta a ansiedade, factor que está na base deste distúrbio).

 o dito cujo

No final do programa, o Dr. Phil levanta-se da cadeira, vai directo ao público e sai de lá de mão dada com uma senhora que exclama “ foi lindo !”.  Bom, agora perguntem-me lá: quem é a senhora ? Eu respondo: a mulher dele, pois então !!!    

  a mulher do dito cujo

Quem, como eu, é licenciado em psicologia clínica, olha para isto e só pode ficar ABISMADO!  Em Portugal (e não só… penso que na maior parte dos países Europeus), considera-se fundamental que o psicólogo seja um elemento neutro, quase que transparente em termos sociais. Há uns anos, quando comecei a minha carreira nesta área, lembro-me de ter sido alvo de algumas criticas por parte de colegas, “só” pelo facto de escrever para revistas consideradas não científicas, ou por aparecer ocasionalmente em programas de televisão. O que me “salvou” foi a Prof. Isabel Leal ter sido a primeira a fazê-lo… assim, quando alguém me abordava com essa temática, eu retorquia logo “se a Prof. pode, porque é que eu não posso, hein ?” …hehehe…

Voltando ao Dr. Phil.  Agora vou falar-vos do site. Aquilo, meus amigos, é que é um site ! Tem de tudo um pouco. Desde aconselhamento virtual, ao relato de casos clínicos, passando pelos livros (tanto dele como da sua esposa), até toda uma panóplia de merchandising montada em torno da sua figura. Podemos adquirir t-shirts branquinhas a dizer “I love Dr. Phil",  bonés,  sacos de pano (como é que eu ainda não me lembrei disto ?!? … e  já passou o Natal, tinha sido tão boa altura para começar o negócio …).

 

alguns dos ""preciosos" artigos ...

 

Concluindo: para a próxima encarnação quero ser Americana, eles é que sabem transformar qualquer profissão num negócio rentável porque, como diz a Teresa Guilherme “Quem tem ética, passa fome!”.

 

A ARTE DA QUEIXA

 

 

Certamente já reparam que quando perguntamos a alguém se está “tudo bem?“, a resposta mais vulgar é “vamos andando..”. Raramente conseguimos obter um “sim, estou bem!”, “ou faz-se por isso!”, o que seria bastante mais positivo e optimista.

Existem, de facto, pessoas que gostam de se queixar. Queixam-se de tudo: da carestia da vida, do patrão, dos vizinhos, dos filhos, dos amigos e, à falta de outra coisa melhor, queixam-se do tempo que faz, e do sol que teima em não aparecer.

A maioria de nós, queixa-se de vez em quando, numa busca de compreensão momentânea para actos de injustiça ou desconfortos físicos. Constitui uma forma de desabafo, que não procura surtir qualquer tipo de efeito que vá para além da partilha de um mal-estar. Pontualmente lá exageramos um pouco no queixume, talvez porque nos sentimos mais fragilizados e desejamos obter uma dose extra de mimo, ou de atenção. Contudo, os tais que se queixam frequentemente, fizeram deste o padrão das suas vidas. Não desejam apenas que lhes façam uma festinha na cabeça, ou lhes dêem um ombro onde possam chorar…

Começam por voltar-se contra o tudo e todos. Anseiam por encontrar aliados que os apoiem nesses momentos de raiva. Generalizam os males e principiam a dizer que está tudo errado, que já se perderam os valores, que a crise civilizacional é uma realidade, que o mundo está perdido e não há quem se preocupe em achá-lo.... Depois deste movimento para o exterior, voltam-se então para eles próprios e iniciam um processo de auto piedade. Queixam-se de que ninguém os ama, que todos os invejam e até desconfiam que alguém possa ter feito umas quantas mezinhas para lhes causar mal. Mas, no fundo no fundo, o que está por detrás de tudo isto é uma dor que lhes tolda a vista e os impede de ver claramente o que se passa.

Torna-se difícil distinguir a dor psíquica da física, perceber onde é que deixa de ser causa e passa a ser consequência. Este emaranhado de emoções e sentimentos transforma-se num ciclo vicioso de infelicidade, de onde é dificil sair. As queixas avolumam-se, o azedume encontra formas variadas de se exprimir. Claro que há sempre alguém disposto a prestar atenção e a explorar o “vamos andando”. Estes minutos de atenção, constituem o combustível que continua a alimentar o queixume, já que não passam de ganhos secundários que apoiam a vitimização. Outros, porém, já cansados da invariabilidade da resposta, optam por nem sequer perguntar mais nada e seguem o seu caminho. É que a queixa sistemática aborrece, desgasta a paciência e faz com que as relações com estes “queixosos crónicos” não sejam agradáveis.

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Outubro de 2006

 

MENSAGEM DE ANO NOVO

 

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo,
cor de arco-íris ou da cor da sua paz,
Um Novo Ano sem comparações com todo tempo já vivido
(mal vivido ou sem sentido)...

Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado à pressa,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)...

Você não precisa beber champanhe,

não precisa enviar nem receber mensagens
(as plantas recebem mensagens? Enviam emails?)

Não precisa fazer uma lista de boas
intenções para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependimento
pelas asneiras consumadas,
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança,
a partir de Janeiro as coisas mudam
e passe a ser tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito de viver!

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo


eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você
que o ANO NOVO vive
e espera desde sempre.
FELIZ ANO NOVO


 

Carlos Drumond de Andrade  (adaptado)

INÍCIO DO ANO, ALTURA DE FAZER UM BALANÇO

 

 

 

O mês de Dezembro é, de facto, um mês que se distingue de todos os outros. Se as crianças andam felizes, quase que eufóricas com a proximidade do natal, no que respeita aos adultos, as coisas passam-se de um modo completamente diferente. Alguns ficam tristes, outros entram mesmo em depressão e chegam a necessitar de ajuda especializada. Este problema pode ter várias causas, mas a mais comum está intimamente relacionada com a vivência muito intensa da solidão.

Os mais velhos tomam consciência que a sua vida sentimental foi renegada não para segundo, mas para terceiro ou quarto lugares e se, ao longo de todo o ano é relativamente fácil preencher esse vazio com actividades profissionais, neste momento tudo pára e o buraco fica a descoberto. Então, ao olharem para os outros que têm família, pais vivos, inúmeros primos e irmãos, pode até surgir uma pontinha de inveja  que é perfeitamente natural e temporária. Desejam ser como eles, que a noite de consoada seja vivida no meio de muita gente, mas nem sempre isso é possível e, face à realidade, o melhor é pensar que no dia seguinte tudo continua igual ao que era.

Outro motivo para o surgimento da depressão, está relacionado com a tendência, quase universal, de aproveitarmos a passagem de ano para fazer um balanço de nossas vidas. Claro que não deixa de ser útil, paramos de vez em quanto para fazer uma auto-avaliação da existência.

 

Que objectivos nos movem ?

 

O que é que já atingimos ?

 

O que pretendemos atingir ?

 

O mesmo costuma acontecer quando fazemos anos, especialmente quando passamos para outra década. Fazer 20, 30, 40 ou 50 anos impõe-nos em regra um período de auto-avaliação cujo resultado nem sempre é agradável. Nesta altura vivênciamos a tristeza de não termos conseguido atingir os objectivos que traçámos, e de estarmos aquém das expectativas e dos sonhos. Ficamos tristes, porque tendemos a ser muito exigentes connosco e se, por exemplo, a dieta não deu os resultados esperados, constitui logo motivo para um grande aborrecimento.

Muitas pessoas se deprimem para além do razoável, porque erram na “contabilidade emocional”, ou seja, não valorizam aquilo que conseguiram e hipervalorizam o que não conseguiram. Então, voltam mais uma vez a traçar metas e objectivos que por vezes são completamente irrealistas. Por exemplo, se durante o ano que passou, apenas conseguiu emagrecer 10 quilos, como é que pode ter a intenção de vir a emagrecer 30 quilos no ano que aí vem ? Assim é fácil perceber que a frustração já tem lugar marcado.

Ficar contente com os pequenos sucessos da vida é bastante mais positivo e útil que viver um sonho inatingível. É claro que “o sonho comanda a vida” e dá-lhe sentido mas, ainda assim, é importante manter a âncora em Terra para que a queda na realidade não seja tão violenta. Os sonhos e projectos práticos são, em regra, bastante mais fáceis de atingir porque basta muito empenho e saber agarrar com firmeza as oportunidades que vão surgindo. O mesmo não se pode dizer de tudo o que tem a ver com os aspectos de crescimento emocional. Aprender a lidar com as frustrações,  desenvolver a persistência, ser assertivo nas relações interpessoais, são aspectos que podem durar uma vida inteira a atingir porque não há dinheiro que os possam comprar. Assim sendo, não poderá ser esse o grande desafio para uma vida ?

 

Artigo publicado na revista FLASH! Em Janeiro de 2004




[ ver mensagens anteriores ]


 


Adicione meu Blog
aos seus favoritos!




Visitante número:

 

Design Personalizado