TRAUMAS, FOBIAS E OUTRAS MAZELAS PSICOLÓGICAS

 

 

        

 

Aplicar termos técnicos, sem aprender o que eles significam, é correr o risco de dizer disparates. O caso mais comum é a crescente banalização do termo fobia  e trauma. Na altura que publiquei este artigo, tinha estado recentemente a ler uma entrevista de uma figura pública (não... não digo quem é  ) onde haviam tantas imprecisões, tantas asneiras, que eu fiquei a pensar se não era melhor ter sido mais humilde e socorrer-se de palavras que REALMENTE soubesse o significado...bom, mas eu sei que não é o único caso...

  

 

A partir de certa altura, as pessoas começaram a utilizar termos psicológicos a torto e a direito sem, na maioria das vezes, perceberem muito bem aquilo que estão a dizer. Ou seja, para o bem ou para o mal, a psicologia passou a entrar na vida do comum dos mortais e, por isso, não é raro ouvirmos frases do tipo “ a Maria tem a fobia das compras” ou “eu não tenho fobia das audiências”, quando se pretende dizer que a Maria tem a mania das compras ou que alguém não  está preocupado com as audiências... 

O termo “fobia” serve para designar um medo excessivo e irracional que sentimos quando estamos perante um determinado estimulo, objecto ou situação. Muitas pessoas têm, por exemplo, medo de aranhas, o que significa sofrer de aracnofobia, ou medo de estar em locais fechados, o que implica ter uma claustrofobia.

Outro exemplo tem a ver com o conceito de trauma. Por tudo e por nada, ouve-se dizer que sicrano ficou traumatizado, como forma de justificar atitudes e comportamentos menos adequados. Felizmente que as coisas a nível psicológico, não se processam dessa maneira! Ficar traumatizado com algo, significa que na nossa vida houve uma situação que foi sentida como altamente violenta em termos psicológicos, a ponto de nos deixar marcas para sempre. Contudo, existem muitos factores que influenciam a formação do trauma. Digamos que tudo se passa como quando éramos crianças e decidimos aprender a andar de bicicleta. Certamente que demos algumas quedas, ficámos com os joelhos feridos, chorámos e receámos que a experiência se repetisse. Mas não foram esses episódios desastrosos que nos fizeram recuar. A nossa mãe acarinhou-nos, disse que tudo isso era normal e até fazia parte do processo de aprendizagem. Nos dias seguintes, ainda doridos, não quisemos nem sequer colocar a hipótese de voltar a andar mas, passado um tempo arriscámos de novo e, se a experiência foi agora mais positiva, a anterior passou à história. No entanto, se após a queda, não existiu ninguém por perto para apoiar e acarinhar ou, no caso de ter existido alguém, a atitude foi de incutir ainda mais medo, certamente a má experiência não será ultrapassada. Sempre que pensarmos no assunto, ou virmos uma bicicleta, a angustia vai surgir. Podemos então dizer que ficámos traumatizados! Este exemplo serve bem, a meu ver, para ilustrar a questão do trauma. É certo e sabido que as experiências negativas podem ser utilizadas em dois sentidos opostos, ou para conhecermos os nossos limites e aprendermos a lidar com as agruras da vida, ou então para nos fragilizarem. Quantas pessoas conhecem que viveram uma infância complicada e que, na idade adulta se tornam adultos equilibrados? Os psicólogos chamam-lhes resilientes. Em contrapartida, outros cuja vida foi linear, sem grandes sobressaltos, transformam-se em adultos angustiados e inseguros. A resiliência é, então, a capacidade de ultrapassar situações negativas e aproveitá-las no sentido positivo. O que a minha actividade clínica me mostra quase todos os dias, é que vulgarmente as pessoas que se escondem atrás de um suposto trauma não são as que tiveram vidas difíceis, mas sim as que foram sempre super protegidas e, por isso mesmo, não aprenderam a superar os obstáculos. Os outros, os que poderiam ter ficado traumatizados ou esmagados com o passado, dão-nos sempre lições de vida!

 

Texto publicado na revista FLASH! em Setembro de 2004

 

 

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  A gripe e os homens...!

 "Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Rosarinho que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Rosarinho, Rosarinho, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Rosarinho, Rosarinho fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Rosarinho, Rosarinho nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão-de-ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Rosarinho, Rosarinho que vou morrer."

... do GRANDE António Lobo Antunes (um dos meus autores favoritos)

 

DESCULPAS ESFARRAPADAS

 

Andava eu a pensar na ENORME (pseudo)criatividade que nos assalta quando temos necessidade de nos livrarmos de alguém… embrulhamos a situação num papel colorido, colocamos um laçarote a condizer e já está! O que sai de lá é um presente envenenado … ou seja, uma desculpa esfarrapada, mas o outro fica tão confuso com a nossa aparente delicadeza que nem sabe o que pensar. Bom, este foi então o mote para o texto que se segue (publicado na FLASH! em Março de 2006)

 

 

 

Existem pessoas que são exímias em fazer uso de pequenas/grandes mentiras de forma a livrarem-se de situações embaraçosas. Mas, para que funcione, há que ter em conta alguns pormenores:

- Primeiro é preciso encarnar uma personagem dócil, de modo a apelar para o sentimento.

- O passo seguinte, é elogiar bastante a outra pessoa e elevá-la aos píncaros (para depois a largar, deixando que se estatele no chão).

- Por fim, há que dizer tudo de um modo convicto.

 

Passemos aos exemplos. Uma das mais velhas mentiras é a já clássica tu és a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. O problema não tem a ver contigo, mas sim comigo... eu é que ainda não estou preparado para ter um relacionamento!”. Deste modo atingem-se três objectivos. Sair airosamente da relação, manter a imagem de uma pessoa sensível (que as mulheres adoram), ao mesmo tempo que se coloca no papel de vítima... sim, porque a última relação o traumatizou a tal ponto, que ainda não se reabilitou. Porém a realidade é bem diferente. Quando há de facto interesse, nada disto tem sentido. O coração não se “prepara”. O amor chega quando menos se espera e instala-se sem pedir autorização!

Outra técnica sobejamente usada é a do “eu não te mereço… tu és boa demais para mim”. Esta é de todas a minha “favorita”. Considero-a tão bizarra que deveria ganhar o Óscar da categoria MELHOR DESCULPA ESFARRAPADA ALGUMA VEZ INVENTADA !    Pensemos um pouco. Quem acredita que haja alguém que, em seu pleno juízo, decida abandonar outra pessoa por achar que ela é boa demais?!? Bom … adiante…

O tempo (neste caso a falta dele) é também outro aliado e tem as costas muito largas pois serve para tudo. Não responde às chamadas? Não houve tempo. Não retribui o SMS? Não houve tempo. Não comprou a prenda de Natal? Não houve tempo. Esta é uma daquelas desculpas que está tão esfarrapada, já nem sequer tem ponta por onde se lhe pegue. Todos sabemos que o tempo é algo muito relativo e, quando se quer, INVENTA-SE tempo. Um SMS envia-se em dois minutos e quem diz o contrário está a mentir. Entrar neste jogo é gostar de ser enganado.

É incontestável que quem se preocupa com o outro e sente a falta dele, evita recorrer a este tipo de estratégias, porque sabe que a médio prazo acabam por dar mau resultado. Por seu turno, todos aqueles que sistematicamente fazem uso delas, para além de tentarem passar um atestado de burrice aos outros, acabam por minar as relações. Vale a pena relembrar que a verdade, por pior que seja, continua a ser a melhor receita para um relacionamento saudável.

 




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