RELAÇÕES TIPO “CASA DE BONECAS”

 

 

 

Este nome deve-se a uma famosa peça de Ibsen, em que o marido da protagonista adoece e a mulher salva-lhe a vida levando-o para estrangeiro. Ela tem de fazer uma série de sacrifícios para arranjar o dinheiro para a viagem, só que tudo isto acontece sem que o marido descubra. A mulher acredita que se ele viesse a saber, o seu orgulho masculino sairia fortemente beliscado e por isso nunca lhe diz a verdade. Mantém-se sempre no seu papel de esposa amargurada e impotente face à situação, quando é ela que está por detrás de toda a resolução do problema.

 

No limite, todos nós conhecemos relações em que existem papéis estereotipados para cada um dos elementos do casal. O homem é muito forte, muito adulto e eterno protector de uma frágil esposa, infantil e dependente. Ela não faz nada sem ter a permissão, ou a colaboração dele. Vai às compras no dia em que o marido pode acompanhá-la, discute com ele o corte de cabelo que vai fazer, embora tenha carta de condução escusa-se a conduzir, não escolhe restaurantes nem locais para tirarem férias. Claro que todo este comportamento tem a ver com a educação de base. Foi-lhe ensinado que, no contexto de uma relação afectiva, a mulher tem de ser frágil, dócil e submissa porque o poder, o lado forte, é destinado ao elemento masculino. A questão principal é que isto não passa de uma fachada. Na realidade, esta mulher sabe que não se deve mostrar segura e agressiva porque, no momento em que o fizer, vai desequilibrar a relação. Por sua vez, este tipo de homens tiveram uma educação em que a frase “um homem não chora” era a pedra basilar, portanto só se sentem bem com mulheres com este perfil e vice-versa. Trata-se de uma espécie de jogo, que ambos, inconscientemente, acordaram jogar e que vai ao encontro das necessidades emocionais de cada um.

Certo é que estas mulheres, quando sentem necessidade, são perfeitamente capazes de se desenvencilhar sozinhas em qualquer situação. A fragilidade desaparece como por encanto e, em seu lugar, aparece a agressividade (talvez seja a outra face da moeda). Não é invulgar que no grupo de amigas manifestem um comportamento quase oposto contudo, perante o namorado ou o marido, voltam a encaixar no papel que lhe destinaram. Por sua vez, este tipo de homens são, na realidade bastante frágeis e dependentes só que não podem assumi-lo. Ou seja, na prática dependem um do outro, mas ambos se comportam como se ele não dependesse, de forma a não saírem do cenário de “casa de bonecas”.

 

 

Texto publicado na revista FLASH! em Novembro de 2005

MÁSCARAS

 

            

 

O Carnaval e é uma época curiosa. Alguns gostam de ir assistir aos desfiles carnavalescos, sobretudo para observarem a nudez das raparigas, ou verem os artistas convidados. Para além disso, é suposto ninguém levar a mal, mesmo que fique com a roupa num pingo, ou a cheirar mal devido a um ovo mal direccionado. Certo que algumas brincadeiras pouca graça têm e, ainda assim, temos todos que fazer um sorriso amarelo para não sermos desmancha-prazeres, restando-nos a esperança que tudo passe bem rápido.

Carnavais à parte, existem outro tipo de máscaras que usamos na nossa vida diária. Através delas protegemo-nos dos outros e, sobretudo, das dores emocionais. Usamos máscaras ao longo da vida e poucas são as pessoas que realmente nos chegam a conhecer a fundo. Os amigalhaços das saídas à noite e jantaradas conhecem o nosso lado folião, animado e socialmente aceitável. Vivem e movimentam-se na chamada zona social, o que implica alguma distância emocional mas também física. Convidam-nos todas as semanas, jantam, saem, divertimo-nos juntos e não chegamos a saber grande coisa acerca deles. A máscara usada é sempre a mesma, espessa, impenetrável, mas sorridente. Com o passar do tempo, alguns amigalhaços tornam-se amigos e, aí sim, passam para a chamada zona íntima. Atingido este estatuto, há cumplicidade, há partilha, portanto também há confiança. Confiança para a exposição de medos, de fraquezas, de infelicidades que fazem por vezes deixar cair a máscara e ficarmos de pele nua perante os outros. Implica correr riscos, certamente que sim, mas dá-nos depois a sensação de liberdade, de podermos SER aquilo que realmente somos, sem necessidade de pinturas na face. Mas, esse percurso nem sempre é linear. As expectativas que os outros depositam em nós, fazem-nos ter avanços e recuos. 

A este propósito, recordo-me de um excerto de um poema de Álvaro de Campos, que é mais ou menos assim “conheceram-me logo pelo que eu não era e eu não desmenti e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava colada à pele”. É preciso coragem para, muitas vezes, frustrar as expectativas dos outros - a uma pessoa divertida exige-se que seja sempre animada, seja qual for o contexto. Vemos o caso dos cómicos profissionais em que o grande público confunde a máscara usada em palco, com a máscara que usam no dia-a-dia. Ficam depois muito desiludidos quando conhecem pessoalmente o actor e vêm que afinal até é tímido e não tem a piada sempre na ponta da língua. Aos psicólogos, por exemplo, é pedido que façam análises psicológicas, retratos instantâneos das almas de cada um, como se as coisas se pudessem processar desta maneira - tipo polaroid. Muitas pessoas ficam desiludidas perante a recusa, outras sentem-se bastante mais à vontade ao perceberem que não temos visão raio-X que lhes retire a máscara e as exponha de qualquer maneira.  Tudo isto se obtém noutro contexto, ou seja quando é iniciada uma psicoterapia. De facto, o objectivo último de uma psicoterapia passa por o próprio se consciencializar dos seus disfarces e, a partir daí atingir um estádio elevado de auto-conhecimento. Este processo é muitas vezes longo e também penoso. A máscara foi usada durante tanto tempo que, como diz o poema, colou-se à pele, passou a fazer parte da pessoa. É preciso um grande esforço e um investimento emocional extremamente elevado para conseguir libertar-se dela e ser quem é, independentemente das críticas que os olhares dos outros transportam consigo. No final, resta a sensação de liberdade e, afinal de contas ... a vida são dois dias e o Carnaval são três!

 

Artigo publicado na FLASH! em Fevereiro de 2004




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