“ Pôr a vida entre duas capas” *

 

 

 

Se me perguntarem qual o meu escritor favorito, não hesitarei em vos dizer que é António Lobo Antunes. Um dia cruzámo-nos na feira do livro de Lisboa (em 2005) e a breve conversa que mantivemos, permitiu-me perceber que é um homem carismático, desconcertante, com um humor mordaz. Daquelas pessoas que são imortais, cuja memória resistirá ao passar dos tempos. Tornei-me fã do autor e do homem.

 

António, nasceu em Lisboa a 1 de Setembro de 1942, licenciou-se em Medicina e optou pela  Psiquiatria. Esteve destacado em Angola na fase final da Guerra Colonial portuguesa, uma experiência que o marcou e que inspirou alguns dos seus livros. Trabalhou no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda mas actualmente dedica-se 100% à escrita.

 

O júri, reunido ontem no Rio de Janeiro tomou a decisão (por unanimidade) de lhe atribuir o prémio Camões. É mais um dos muitos prémios que tem conquistado. “Manual dos Inquisidores’ foi considerado o melhor livro estrangeiro publicado em França em 1997 e “A Morte de Carlos Gardel” (1994) recebeu o prémio France-Culture. Foi ainda distinguido pela União dos Escritores Romenos (2003), recebeu o Prémio União Latina no mesmo ano, e foi contemplado com o Prémio Jerusalém em 2005. Entre nós, tocaram-lhe o Prémio Fernando Namora (2004) e o Franco-Português (1987).

 

Avesso a protagonismos, António Lobo Antunes reagiu à distinção com um lacónico: “É um prazer lembrarem-se do meu nome!”. Falta-lhe o Nobel !

 

* para António Lobo Antunes é esta a tarefa de um escritor, ou seja, a sua.

Deusas e capachos

 

 

Pablo Picasso, um dos maiores pintores do século passado, ficou conhecido pela sua arte e também pela capacidade de sedução. Encontrou na pintura uma forma de exprimir as suas paixões.  Por exemplo, na Fase Azul encontrava-se dominado pela tristeza mas ao apaixonar-se por Fernande Olivier passa para uma fase alegre e delicada – a Fase Rosa e assim sucessivamente, isto é, a sua criatividade corria a par das emoções. Certo é que deve-se a Picasso uma frase muito célebre acerca das mulheres. Dizia o génio, que só existiam “duas espécies de mulheres: deusas e capachos!”.

 De facto, algumas foram imortalizadas nas suas obras, outras caíram completamente no esquecimento. Mas o que marca a diferença? O que faz com que uma mulher apenas sirva para capacho, enquanto que outra é endeusada? Tudo se resume a duas palavras – autoestima e autoconceito. Gostarmos de nós próprios, termo-nos em boa conta, facilita as relações com os outros. Evita que nos coloquemos “a jeito” para sermos vítimas de humilhações e desconsiderações, sejam de que tipo for. Mas, a autoestima constrói-se e solidifica-se, com base nas demonstrações de afecto daqueles que para nós significam algo. Alimenta-se de carinhos, de atenções, de elogios sentidos como verdadeiros. Passa também muito pela linguagem não verbal ou seja, por tudo aquilo que vai para além das palavras e que entra no campo dos afectos. Uma mulher com a autoestima fortalecida jamais servirá de capacho, porque se respeita e, ao respeitar-se, não permite que os outros (sobretudo aquele que é alvo do seu afecto), a desrespeite. Existem depois todas as outras. Aquelas que se habituaram a (sobre)viver muito abaixo dos níveis da dignidade. Esta postura face aos outros e à vida, é automaticamente sentida pelos que estão à volta, fazendo-os a agir na conformidade. Tornam-se então mulheres sofridas, amargas, queixam-se de ser constantemente maltratadas pelos outros mas, no fundo, são elas próprias que se maltratam. Ninguém respeita um capacho e, quem se coloca nesse papel, não pode estar à espera de um tratamento diferente. No fundo, há que encontrar meios, internos e externos, que aumentem o auto conceito e fortaleçam a auto estima. Ou seja, não é preciso ser deusa, mas não poderá haver um estado intermédio que não passe por colocar-se sempre no lugar de capacho?

 

Texto publicado na revista FLASH! em Junho de 2006




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