SER NORMAL

 

 

Há uma tendência para acreditarmos que fazemos parte do grupo de escolhidos para representar a normalidade. Baseamo-nos num critério puramente estatístico, já que olhamos para os lados e sentimos que os outros são, mais coisa menos coisa, iguais a nós. Falamos a mesma língua, comportamo-nos de uma maneira socialmente correcta e adaptada à realidade, possuímos hábitos semelhantes. Mas o conceito de normalidade não se pode reduzir ao critério estatístico! A propósito, costumo brincar com as pessoas que me abordam com esta questão, explicando-lhes que, se fossemos levados pelo critério estatístico, então os asiáticos estariam a ganhar e os europeus passavam automaticamente para o campo da anormalidade!

O que consideramos “normal” tem, felizmente, várias tonalidades. Existe um padrão que é mais ou menos consensual, e que serve de ponto de partida para as comparações. Face a isto, há depois uma diversidade de comportamentos, muitas vezes influenciados pelo meio em que nos inserimos. Muitos dos hábitos que adquirimos nas grandes cidades são diferentes dos assumidos em meios rurais, por exemplo. Recordo-me da comunidade Amish (recentemente envolvida numa situação trágica), cujo modo de vida se mantém inalterável ano e após ano. Recusam usufruir dos progressos científicos, não se regem pelas leis ditadas pelo estado e possuem um sistema de valores, quer morais quer sociais, bastante distinto da maioria dos americanos.  Estas características são o suficiente para os considerarmos anormais? Certamente que não. Diferentes sim, anormais não! A diferença é um direito que nos assiste, mas tendemos a esquecer-nos disso.

 

Certo é que se durante a infância, tudo o que é diferente nos atrai, (não pela estranheza mas sim pela novidade), essa tolerância vai decrescendo à medida que nos socializamos, até ao ponto em que tendemos a padronizar tudo. Colocamos rótulos nas pessoas e, mais do que isso, olhamos de soslaio para o que se afasta desse padrão que interiorizámos como certo e adaptado. Até os profissionais de saúde mental são por vezes vítimas desta tentação, e fazem diagnósticos sem levar em conta que por vezes o desequilíbrio é circunstancial, não estrutural. Só que um rótulo colocado por um profissional é muito diferente do “simples” comentário do vizinho, já que se pode arrastar toda a vida, com graves repercussões, quer a nível interno quer externo. Posto isto, há que aprender a olhar para o outro como um ser único, que lá por ser diferente de nós não passa a ser anormal...

 

 

Texto publicado na revista FLASH em Novembro de 2007



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