COMEMORAMOS HOJE A LIBERDADE ...

Usamos muito a palavra “liberdade” mas temos bastante dificuldade em defini-la.  Quando questionamos as pessoas, todos afirmam que o seu maior desejo é serem livres, porém,  tenho a sensação que são poucos os que sabem o que fazer com a liberdade. O mais comum é associarem liberdade com a não existência de limites, isto é, move-as o desejo de agir como se não existissem regras de espécie alguma. Não é esse, de facto, o meu ponto de vista. Considero que, para nos sentirmos bem connosco próprios têm de existir travões, mais que não seja a nível interno. Enquanto que os animais vivem na bipolaridade entre o desejo e o medo, o Homem  possui um cérebro que lhe permite enunciar normas de conduta para que consigamos viver em sociedade. Aliás,  um dos objectivos da educação, consiste exactamente na interiorização dessas normas. Não é um processo fácil, já que todas as crianças agem com o objectivo de obter o prazer imediato, sem se preocuparem se o desejo que os move vai colidir com o desejo dos outros. Perante a frustração surgem as birras, as explosões de agressividade e se durante a infância, agimos correctamente é porque temos receio de sofrer algum tipo de sanção por parte dos nossos educadores. Mais tarde, não é o exterior que age sobre nós, porque existe já a possibilidade de ajuizarmos sobre os nossos actos e de nós próprios nos sancionarmos. Entra então a questão da culpa, que é uma espécie de dor interior, um sinal que nos alerta para o facto de não termos agido na conformidade com as regras que interiorizámos. Qualquer pessoa emocionalmente equilibrada sente culpa, ou remorso, quando não age segundo os seus valores morais. Agir apenas segundo a nossa vontade, é sinal de imaturidade. São as crianças que dificilmente aguentam frustrações e entraves ao desejo. Mas, ser emocionalmente equilibrado não implica travar completamente o desejo. Por exemplo, se estou de plena saúde, o que me impede de comer doces ? Mas, se for diabético, porque é que os vou comer se sei que isso vai ser nocivo para a minha saúde ? Se vou sair à noite, porque tenho de beber mais do que o razoável se sei à partida que tenho de conduzir ? Claro está que poderei dizer que isso é uma liberdade que me assiste. Nestes casos, é o tipo de liberdade que prejudica tanto os outros como o próprio. É uma liberdade  agida de modo irresponsável e autodestrutivo. Não é sinal de força, mas sim de fraqueza. Ainda a propósito deste tema, uma das coisas que se afirma frequentemente, até como forma de elogiar alguém é “fulana é muito honesta, sincera ... diz tudo o que tem a dizer na cara da própria pessoa”. Será que isso é ser livre ou constitui, de facto, uma qualidade ? Não sei haverá alguém que conseguirá reagir com um sorriso nos lábios a uma opinião menos simpática. Por exemplo, naqueles dias em que nos achamos gordas e feias, sem brilho nem atractivo algum, se uma das tais amigas “honestas, que dizem tudo “ chegar ao pé de nós e nos disser “hoje estás feia. Estás mais gorda ?”, certamente que esta opinião não será bem vinda nem contribuirá para  o reforçar dos laços da amizade. Será encarado como um acto agressivo e mal intencionado. Assim, parece-me que a sinceridade é uma característica positiva quando doseada com bom senso. Ser libre, não é ser capaz de realizar todas as vontades, nem dizer o que lhe passa pela cabeça.  A verdadeira liberdade, resulta da sensação interior de se ter conseguido atingir um patamar de equilíbrio entre o desejo e as normas vigentes. Aceitar que existem limites não deve ser entendido como sinal  de conformismo, ou de resignação, mas sim de adaptação e de maturidade. Porque, como se costuma afirmar “a minha liberdade acaba quando começa a do outro” e essa continua a ser uma verdade inquestionável!

 

 

Texto publicado na revista FLASH! em Abril de 2005

 

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