DE NAMORADO A AMIGO

 

 

 

 

Quase todos os namoros terminam com a célebre frase “é melhor sermos só amigos”. Podemos considerar que é uma falta de originalidade, mas frequentemente um relacionamento de amizade resulta bastante melhor que um namoro. Talvez porque o namoro se ergue com base numa regra de exclusividade e, também, porque o que se exige a um namorado não se pode exigir a um amigo… Face a uma situação de ruptura, quando ainda existe um sentimento forte (pelo menos de um dos lados), é difícil ou quase impossível, imaginar que daí para a frente haverá uma reformulação das relação. Para além disso, é necessário que o carinho e o respeito mútuo tenham sobrevivido às habituais turbulências da ruptura. Namoros que acabam devido a traição, ou quando houve agressões físicas e psicológicas, dificilmente se transformarão em amizade. Parece-me também que há a necessidade de se fazer uma paragem. Uma espécie de intervalo, para que os ânimos acalmem, os afectos negativos se desvaneçam e então sim, recomeçar. Quando os casais passam directamente de um namoro/casamento para uma amizade é porque deixou de haver atracção física e o sentimento que os unia também se modificou. Mas, conforme sabemos, o amor é um afecto com uma enorme carga energética e que dificilmente se apaga de uma hora para a outra. Assim, o que costuma acontecer é que apenas um dos elementos do casal deixa de estar apaixonado, o que impossibilita a amizade, pelo menos a curto prazo. Quem é  que aguenta psicologicamente, estar a ouvir relatos de novas conquistas da boca de uma pessoa por quem ainda se encontra apaixonado ? Só se estivermos perante um caso de masoquismo! De facto,  penso que o factor determinante é o modo como tudo terminou. Se a ruptura se deu de uma forma mais ou menos pacífica, se a relação foi encarada seriamente não como um caso passageiro, há a possibilidade de, num futuro, do ex-namorado ascender a outro estatuto. O tempo é uma questão fundamental.  É impossível terminar um namoro e, no dia seguinte, passar a olhar para o ex-namorado como um “simples” amigo. Há todo um processo de luto e de arrumação interna, que tem de ser respeitado. Para além de tudo, ambos precisam estar em sintonia, pois se ainda existir paixão ou atracão física, os riscos de decepção e de mágoa são imensos ! Em resumo, construir uma amizade a partir do zero já é complicado, mas erguê-la sobre um passado é mais complicado ainda. É necessário tempo para resolver os conflitos internos, de modo a que não haja lugar para o surgimento de crises de insegurança ou de ciúme.

 

Texto publicado na revista FLASH! em Agosto de 2006




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