Personalidades fortes e fracas

É interessante constatar, que uma das expressões habitualmente utilizadas para descrever uma criança ou adolescente teimoso, caprichoso ou que dificilmente obedece a regras, é “tem uma personalidade forte”. Como se o bom comportamento vivesse de mãos dadas com a fraqueza, e a desadequação estivesse associada à bravura. Claro que uma dose de coragem e de capacidade de desafiar regras é que nos permite avançar no sentido da maturidade. Todos aqueles que vivem vergados sob o peso das regras, que lhes falta coragem para olharem olhos-nos-olhos para a vida, certamente não vão a lado nenhum. Contudo, devo afirmar que me desagrada em absoluto esta separação de personalidade entre forte e fraca, sobretudo quando se associa o forte ao arrogante, autoritário, inflexível nas ideias e, o fraco àquele que mantém um low profile, segue o seu caminho sem fazer grandes ondas, nem provocar atritos.
Tenho outra concepção do que é ter uma personalidade forte. Para mim é ser estruturado, flexível, aprender com os erros e desejar evoluir. Em situações-limite, muitas pessoas que eram encaradas como fracas, são capazes de actos de heroísmo pois o contexto o exige. Sim, porque é fácil ser forte, se as condições não forem adversas, se tiver havido sempre uma super protecção familiar que o permita. Todos conhecemos miúdos (e também graúdos), que se transformam em autênticos tiranos porque nunca lhes impuseram limites. A família roda em torno deste astro-rei, que põe e dispõe a seu belo prazer. Na escola são algumas vezes colocados de lado já que recusam a enquadrar-se nas regras preestabelecidas. A relação com os pares é igualmente problemática, das duas uma, ou encontram seguidores fiéis que satisfazem todos os seus caprichos, ou envolvem-se em lutas de poder. Sem querer aprofundar muito o tema, importa acentuar que isto de as pessoas possuírem uma personalidade forte ou fraca, é muito mais complexo, do que o simples levantar da voz ou assumir atitudes de tirania. A força e a fraqueza não se podem medir numa escala de tudo ou nada. Os fracos sobrevivem à fome, ao frio, a injustiças e privações de toda a ordem. Os fortes vergam-se perante conflitos inesperados porque agem sempre segundo um determinado padrão, inflexível que lhes confere uma fraca adaptabilidade á mudança. Todos aprendemos, por exemplo, que a dureza das pedras é relativa. Se o diamante for quebrado jamais voltará a soldar-se, enquanto que o gesso se transforma em pó e permite ser novamente utilizado. Mesmo não havendo uma escala de Mohs para a personalidade humana, talvez o ideal seja encontrar o equilíbrio a meio-caminho.
Texto publicado na revista Flash em Março de 2007
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