PALAVRAS LEVA-AS O VENTO …

 

 

 

Todos nós sabemos que a tradição já não é o que era. Actualmente as pessoas um dia fazem juras de amor eterno mas, no dia seguinte, “desapaixonam-se”, voltam as costas e vão à sua vida sem olharem para trás. Para além disso, são acometidas de uma espécie de amnésia que as faz esquecer tudo o que disseram. “Amar-te, eu?... Pois, se calhar disse-te isso mas agora já não é verdade!”. De facto, o tempo que medeia entre estas duas realidades, começa a encurtar a olhos vistos, talvez porque as palavras valem o que valem. É muito fácil dizermos coisas que sabemos irem ao encontro do desejo dos outros, mas difícil é fazer com que os actos encaixem nas palavras e, se estivermos atentos, é muitas vezes nesse ponto que as coisas não batem certo. Os especialistas em comunicação mostram claramente que a linguagem verbal é perfeitamente possível de controlar, mas o mesmo não se passa com tudo o que é do campo do não verbal. Um olhar ou um gesto, podem denunciar uma mentira, ainda que a construção frásica seja perfeita! Importa estar atento e, como nós sabemos, o estado de paixão não possibilita que a atenção seja plena. Só com o passar do tempo é que conseguimos ver com toda a clareza que tudo não passa de palavras … e ninguém se sente feliz a viver de palavras! As palavras podem ser bonitas de ouvir, mas se forem vazias de conteúdo acabam por desvanecer-se. De que vale dizerem-nos que somos especiais, quando os actos não o demonstram? O afecto só é sentido quando é materializado no dia-a-dia, em momentos de atenção e de carinho. Isto é verdade mesmo numa relação de amizade. Existem pessoas que quando nos vêem são muito efusivas nas demonstrações de afecto: gritam bem alto “amiga! Tinha tantas saudades tuas … Que bom voltar a ver-te. Gosto tanto de ti! ”, Abraçam-nos fortemente, exclamam para quem quer ouvir que a nossa amizade é algo precioso e único. Pois … mas nesse mesmo dia, ao voltarem as costas, essa amizade ”preciosa e única”, parece ganhar asas e voar directamente para um canto do sótão, onde é remetida ao esquecimento. Voltam a passar meses, até anos, sem haver qualquer tipo de contacto. Não restem dúvidas que quem age assim não passa de conhecido ou pseudo-amigo de ocasião. A amizade, como o amor, tem de ser “regada”, caso contrário está condenada a morrer por falta de cuidados e não são as palavras que a alimentam, mas sim os actos!

 

Texto publicado na revista FLASH em Março de 2005