CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM

                          

No que respeita à justiça, o mundo parece clivado em dois. Para um lado ficam todos aqueles que acreditam na existência de uma vida para além da vida e que, por isso mesmo, temem futuramente ser alvo de um tribunal Divino que os venha a punir pelos pecados que cometeram na vida terrena. Depois há os outros, para quem tudo se resume exactamente àquilo que vêem e sentem no aqui e agora. Para esses, a ideia que vigora é a de que «cá se fazem, cá se pagam»,  ou «quem semeia ventos colhe tempestades» ou «quem boa cama fizer nela se deitará».  A ideia que subjaz a todos estes ditos populares, é uma outra espécie de fé que acredita que os nossos actos e comportamentos obedecem ao efeito de boomerang. No entanto, a esse retorno acresce-se alguns juros, pois os ventos transformam-se em tempestades!

Esta lei, totalmente irracional,  funciona como uma espécie de travão que nos pode fazer pensar duas vezes antes de agir. Achamos, então, que os nossos gestos simpáticos e generosos vão accionar simpatias e generosidades, do mesmo modo que os comportamentos vingativos despertam vinganças e raivas que acabam inevitavelmente por nos atingir.

Parece-me que, sem a convicção da existência de um continuum, em que a morte não constitui o ponto final, mas sim uma breve interrupção que nos permite fazer algo semelhante a mudar de canal, ou mudar de essência, tudo deixaria de fazer sentido. De algum modo, mesmo os mais cépticos, colocam um pequenino ponto de interrogação em todas estas questões e, por via das dúvidas, vão tentando controlar-se como podem pois, quer seja nesta vida ou na outra, o que parece estar assumido é que ninguém escapa à justiça.

Certo é que num ponto estamos todos de acordo: a vida, tal como a conhecemos, um dia acaba e o que persiste para além dela faz parte do domínio do desconhecido. Assim, independentemente das expectativas pós-morte, é importante vivermos segundo os nossos valores, pois só assim poderemos dizer que fomos os verdadeiros protagonistas da nossa vida terrena. O constante invocar de Divindades, responsabilizando-as pelo nosso azar ou sorte, apenas contribui para que nos transformemos em seres conformados e fatalistas. Apesar de não ter uma absoluta certeza de que «cá se fazem, cá se pagam», mas não me restam quaisquer dúvidas que se valorizarmos os actos de amizade e de carinho, se tratarmos bem quem nos trata bem e simplesmente nos afastarmos de todos os outros cuja amizade é duvidosa, a vida parecer-nos-á mais fácil de ser vivida.

 

Texto publicado na revista FLASH ! em Setembro de 2006