A IRONIA - uma (das muitas) máscaras da inveja ...

 

 

                  

 

 

A ironia e o sarcasmo, seu irmão gémeo, são utilizados com alguma frequência na linguagem comum. Faz-se uso da ironia quando o conteúdo do que é dito, não é exactamente aquilo que à primeira vista parece ser. A intenção é geralmente depreciativa ou sarcástica e isso transparece na entoação. “Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor”” esta frase proferida por Mário de Andrade, ilustra bem o que é a ironia. O autor começa por proferir uma série de elogios à rapariga e, no meio destes, inclui um aspecto depreciativo que altera por completo o significado de tudo o que tinha sido dito até então. Mas, como comecei por referir, não é só na literatura que a ironia é utilizada.

Existem pessoas irónicas por natureza. Ao falarmos com elas, ficamos com uma sensação desagradável, de desconforto. As conversas possuem sempre uma tonalidade agressiva, mas nada é dito de maneira directa, portanto acaba por ser difícil pegar no que quer que seja de modo a confrontá-las. Tudo é evasivo, fazendo uso das chamadas “bocas” deitadas para o ar, mas que nós estamos conscientes de saber muito bem a quem se destinam. Torna-se necessário atingir um certo patamar de maturidade para conseguirmos descodificar a mensagem subliminar que o outro nos quer passar. Isso explica o facto de ser uma das últimas capacidades cognitivas que as crianças desenvolvem. Aliás, se formos irónicos para uma criança, ela não o vai perceber e o significado será levado à letra.

Em regra, a ironia está assente em sentimentos negativos, dos quais sobressai a inveja. O invejoso sente-se de tal modo inferior ao invejado, que não o consegue enfrentar directamente e então opta por modos indirectos. Por exemplo, numa reunião de amigos decide puxar um tema de conversa no qual lhe é possível proferir opiniões sarcásticas, sentidas pelo outro como agressões directas. Estas atitudes são acompanhadas por um conjunto de expressões faciais ou de exageros, que fornecem pistas e ajudam a clarificar o verdadeiro sentido do que foi dito. No entanto, tais pistas nem sempre estão presentes e, neste caso, torna-se necessário conhecer muito bem a pessoa para perceber as suas reais intenções. Mas, tudo o que envolve afectos, acaba por complicar-se e, este caso não é excepção. Chegar à conclusão que alguém que estimamos e temos como amigo há longos anos, de repente fala de nós num tom irónico, implica perceber que essa pessoa não gosta tanto de nós como julgávamos e isso provoca sempre dor e decepção.

 

Texto publicado na revista Flash! em Agosto de 2006