PRESSÕES SOCIAIS

 

 

Vivemos, desde sempre, sujeitos a pressões sociais da mais diversa ordem. Durante a infância é-nos pedido que deixemos as fraldas num determinado momento, dando início a uma nova etapa de maior independência. Vamos para o Infantário e aí pedem-nos que sermos autónomos, comermos sozinhos, respeitarmos regras e aprendermos a brincar e a respeitar os outros. Este é o passo que nos permite introduzirmo-nos nos grupos, dando início à vida social. E assim vamos progredindo. Na adolescência vemo-nos esmagados por pressões do grupo, ao mesmo tempo que lutamos contra as regras que estão estabelecidas pelos mais velhos. A regra que adoptamos é a dos nossos pares, porque só assim podemos ser aceites por eles. Por essa altura nem nos apercebemos que, ao mesmo tempo que travamos uma luta contra o sistema, subjugamo-nos às leis impostas pelos nossos amigos. Cortamos o cabelo segundo o mesmo modelo, vestimos as marcas apreciadas por eles, frequentamos os lugares que sabemos que eles frequentam, lemos as revistas que todos lêem, transformamos em ídolos as personagens que eles admiram.

Mais tarde, terminada a escolaridade, as exigências sociais passam a ser outras. É bom e desejável tirar um curso de forma a garantir um bom nível de vida. A eleição do curso é outro problema. Existem cursos mais nobres e respeitados socialmente que outros. Uma carreira no âmbito das artes é sempre encarada com alguma apreensão, quer pelos pais, quer pelos amigos. Para além de não dar dinheiro, há também a associação a uma orientação sexual duvidosa. Este é o motivo que leva muitos jovens talentosos a seguir um percurso diferente daquele que iria mais de acordo com as suas aptidões. Terminado o curso é suposto ter namorado/a e, passado algum tempo, há que anunciar o casamento. Embora já tenha abordado anteriormente esta problemática, volto a referir que ter mais de 30 anos e ser solteiro/a gera alguma confusão na nossa sociedade. De imediato se questionam sobre os porquês de tal opção. As respostas são invariavelmente duas: ou tem defeito ou então é homossexual. Pronto. Está resolvido o enigma e, como as pessoas gostam muito de respostas do tipo “é branco ou preto”, a questão clarifica-se assim. Para os outros, aqueles que seguem o rumo certinho e adaptado, passada a fase do casamento, há que ter filhos. Então nos jantares de grupo as conversas começam a centrar-se unicamente nesse ponto. “Então? E quando é que tens filhos? “, “ Estás casada há quanto tempo? Já vai sendo altura de teres filhos... “, são frases ouvidas sem conta. Se o desejo (dos outros) não é atendido, então surgem outro tipo de desconfianças. Ou o casamento vai mal, e por isso não querem deixar descendentes, ou então existe algum problema físico que os impede. Pronto. Está de novo o enigma resolvido. E continuamos na mesma linha sendo que, passado um tempo de ter o primeiro filho, inicia-se um novo ciclo. “Então? Quando é que têm o segundo? É importante dar-lhe um irmãozinho“. Ao mesmo tempo que perguntam se o outro já deixou as fraldas, quando é que vai para o Infantário, etc., etc.

À parte ficam os outros, os tais “marginais” que não entraram no esquema já montado pela sociedade e decidiram ser protagonistas da sua própria vida. Como resultado têm de suportar, muitas vezes em silêncio, este tipo de conversas nos jantares de grupo, porque nada têm para partilhar e os outros pouco se importam com isso. Afinal de contas, quem os manda serem diferentes?

 

Artigo publicado na revista FLASH! em Novembro de 2004