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"POR-SE A JEITO ..."

 

 

Quantas vezes sentimos que as coisas más só acontecem porque nós a permitimos ou nos “colocamos a jeito” ? De facto, uma das mais-valias da maturidade, é adquirirmos um certo capital de vida, que nos permita ver para além das fachadas, descortinando intenções camufladas. Esta capacidade possibilita a criação de determinados mecanismos de defesa, que nos protegem das desilusões. Claro está que só vivendo poderemos adquirir esta experiência. E viver acarreta riscos. Quanto a este ponto não há muita volta a dar. Contudo, existem pessoas que tendem a não aprender com os erros. Repetem os mesmos caminhos até à exaustão. Não analisam as situações à luz de outras que, sendo análogas, acabaram por correr mal e trazer consigo a desilusão. De certo modo, parece que se posicionam na vida sempre de determinada maneira. Tudo fazem para serem magoados, quase como se vivessem numa roda gigante que volta sempre ao mesmo sítio, repetindo desnecessariamente as mesmas histórias, vezes sem fim. Mas, se estivermos bem atentos, poderemos perceber que não são as histórias que se repetem, mas sim o modo como as pessoas a escrevem. Isto é, se colocarmos num pauta sempre com as mesmas notas, resultará daí uma melodia necessariamente semelhante, ou mesmo igual… com a vida sucede exactamente o mesmo. Por exemplo quantas vezes pensamos não mais voltar a emprestar livros, pois em regra não nos são devolvidos ? Ou em deixar de ser tão permissivos com alguns amigos, porque isso nos prejudica. Certo é que, depois de nos indignarmos, de jurarmos não mais cometer erro semelhante, tudo acaba por voltar ao mesmo. Perante o facto consumado, levamos as mãos à cabeça e perguntamo-nos como foi possível. Acabamos por entrar numa espiral de culpa. Sentimo-nos ludibriados, magoados com a vida e com as injustiças que ela permite. Depois da “poeira assentar”, percebemos que, no fundo, no fundo, fomos nós que permitimos que tudo aquilo acontecesse ou seja  … colocámo-nos mais uma vez a jeito! Volta, então, tudo ao princípio. Juramos que esta foi a ultima vez mas … mudar comportamentos e atitudes é muito complicado, porque implica mexer com muitos factores internos. O primeiro passo consiste em tomar consciência dos actos, e só depois se pode trabalhar no sentido da mudança. A evolução faz-se com passinhos pequeninos e inseguros. Umas vezes progride-se, outras tropeça-se, no longo caminho. Mas, com muita insistência, chegará o dia em que deixamos de estar lá, permanentemente, no mesmo sítio, com os mesmos gestos, com as mesmas posturas. Mudamos… e então deixa de dar jeito que os outros nos continuem a magoar.

 

Texto originalmente publicado na revista FLASH! em Janeiro de 2008