HOJE, AO ACORDAR, DECIDI QUE JÁ NÃO TE QUERO !

 

Na altura em que escrevi este texto, andava a pensar na leviandade com que as pessoas quebram compromissos. Todas as semanas vemos casais que há bem pouco tempo fizeram capas de revista a apregoar a sua felicidade, virem agora dizer que tudo não passou de uma precipitação, de um lamentável engano. Constroem e destroem projectos de vida, com a mesma velocidade com que a moda muda todas as estações. Que tempos estes!

 

Comove-me ver como ainda existem casais de octogenários que ainda se olham com carinho. Talvez seja possível encontrar até uma pequenina chama de paixão, no fundo daqueles olhos que os anos tornaram baços. Não acredito que a explicação para estes casamentos tão longos se resuma ao habitual “eram outros tempos, a mulher não trabalhava, portanto tinha de se sujeitar a um casamento de conveniência…”. Parece-me, então, que o casamento seria algo semelhante a uma prisão perpétua! Porém, o afecto que se sente no cruzar daqueles olhares não deixa dúvidas. Mesmo que no início da relação não existisse amor, certo é que a cumplicidade dos anos, as dificuldades partilhadas, os filhos educados em conjunto, fez com que o sentimento surgisse e ocupasse o seu lugar.

Actualmente tudo é diferente.

Diz-se que se que casam por amor (?). Organizam grandes festas, vão de viagem de lua-de-mel para lugares paradisíacos mas, de repente tudo muda! “Enganei-me…não sei o que vi nele...”, “não estou preparado para isto, sou muito novo para estar preso…”, todos os argumentos são válidos para destruir aquilo (pouco) que foi construído. Depois é tentar fazer marcha-atrás e voltar à “pista “, o que implica  assumirem uma atitude que encaixe na imagem da “boa onda”.  Cirandam então por todas as festas, de modo a haver muitas fotografias, de preferência abraçadas a homens bronzeados ou mulheres decotadas. Alguns/algumas mantêm esta atitude até que voltarem a encontrar outro/a companheiro/a. Outros, passado algum tempo, sentem que, afinal de contas o/a ex não era má de todo, em comparação com as/os que entretanto conheceram. Decidem voltar. Confessam-se arrependidos, desculpam-se com a imaturidade, os traumas do passado, a impulsividade que não obedeceu à razão… só que estes episódios deixam marcas e a relação não voltará a ser o que era. A rotina volta a instalar-se. Querem mais. Querem viver em dois mundos e retirar o que melhor há em cada um. Como isso é um tarefa muito complexa,  um dia acordam e acham, de novo, que não era bem aquilo que sonharam. E volta tudo ao mesmo!

Enfim… O que mudou na nossa sociedade não se pode atribuir apenas à emancipação da mulher, porque é algo que se situa muito mais lá no fundo, foi, isso sim, a capacidade de criar laços de apego por alguém. O narcisismo é uma espécie de erva daninha que invadiu os corações. As pessoas amam muito… só que se amam a elas próprias! O problema é que todos sabemos o que aconteceu ao Narciso, depois permanecer tanto tempo a olhar para a sua imagem reflectida no lago…

 

ilustração: "Narciso" de Caravaggio




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