.

SEGREDOS

 

 

Ao contrário do que pensamos, são poucas as pessoas que possuem verdadeiros segredos. A maioria esconde factos que lhes causaram um sentimento de embaraço, ou de humilhação. Por vezes está por detrás o medo de magoar alguém, de frustrar as expectativas, ou o desejo de manter a imagem que construíram socialmente. No entanto, estes segredos acabam por ser revelados a alguém, quer se trate de um amigo, um amante, um familiar ou um técnico. Curiosamente, muitos são partilhados com desconhecidos, numa qualquer ocasião que propicie o desabafo. Certo é que, ao partilharmos um segredo, aliviamos o peso associado ao facto de julgarmos ser os únicos detentores de uma qualquer informação muito importante, pelo menos para quem o possui, pois se assim não fosse, não tinha qualquer razão de existir. Frequentemente tratam-se de acontecimentos da infância, momentos de ódio, raiva, inveja, ou qualquer outra nuance que faça parte daquele leque de emoções socialmente condenáveis. Pode ser que também estejam ligados a situações que associamos ao pecado, ou algo que ocorreu no período do despertar da sexualidade.

Existem também, os segredos partilhados. Este é um ponto comum a quase todas as famílias ou mesmo a grupos de amigos. Algo que faz parte do campo do proibido e que, por isso mesmo, se transformou num tabu. Todos têm conhecimento dos factos, mas ninguém o refere claramente e assim se consegue manter o equilíbrio do grupo/familia.

Certo é que o segredo pode constituir um peso brutal para quem o carrega. Partilhá-lo alivia, mas há que escolher uma pessoa de confiança, caso contrário, como o povo costuma dizer “é pior a emenda que o soneto”, já que existe sempre o risco de ser exposto na praça pública. Religião à parte, neste ponto a figura do padre (e da confissão) é de extrema importância, sobretudo em lugares onde não é fácil o acesso a uma consulta de saúde mental. A confissão (e consequente absolvição), permite descarregar a angústia ligada ao segredo e restabelecer o equilíbrio emocional. De igual modo, muitas pessoas procuram um psicólogo clínico, com o objectivo de partilhar episódios fortemente carregados de culpa, num momento em o peso passou a ser incomportável. Depois da situação ser desmontada, conseguem entender e, sobretudo, interiorizar, que afinal de contas não se tratava de algo tão vergonhoso como à partida era visto e sentido. Segue-se uma acalmia e um suspirar de alívio, o que abre a possibilidade de trilhar novos caminhos, agora sem a existência da âncora que os mantinha ligados ao passado.

 

 Texto publicado na revista FLASH! em Junho de 2006