A VINGANÇA

Segundo o povo, "serve-se fria", o que equivale a dizer que não é um acto irreflectido. Obedece a um plano, cujo objectivo é dar resposta a uma pessoa, ou a um grupo, que nos prejudicou directa ou indirectamente. No entanto, ainda que se possa pensar numa acção para igualar as coisas, a perspectiva de "olho por olho, dente por dente" raramente acontece, ou seja, quem a comete não retribui da mesma moeda. Pretende-se sempre dar uma lição ao outro, para que este nunca mais repita a acção, ou magoá-lo como nos magoou, mas sempre com juros acrescidos ! Mas porquê esta necessidade ? Não nos podemos esquecer que a traição, a mentira, a falsidade ... traduzem-se sempre em danos para a auto-estima. Para quem possui uma auto-estima fraca, será um meio de confirmar o seu baixo valor, pelo que habitualmente estas pessoas não tem depois energias suficientes para se vingarem. Mas, quando a vitima se sente molestada e, apesar disso, mantém a confiança em si própria, pode optar por mostrar o desagrado, arquitectando um plano com vista a concertar o dano interno. O método é discutível, a tal ponto que a ética que subjaz à vingança, é um assunto muito discutido pela filosofia. Uns encaram-na como necessária para a existência de uma sociedade justa, outros opõem-se completamente a ela. A este propósito Ghandi terá afirmado que, "de olho por olho e dente por dente, o mundo acabará cego e sem dentes." ! Em algumas culturas, como a japonesa, a vingança é um dos papéis desempenhados pelos Samurais, sempre que a honra da família ou do clã é posta em causa. Fraqueza humana ? Talvez sim. Claro que todos os sentimentos e emoções podem ser controlados, desde o amor ao ódio. Daí que a vingança testemunhe que não houve capacidade de resolver internamente o conflito e que se teve de agir. A acção surge como um meio de acarinhar o Ego. Tácito, um famoso historiador latino, afirmava que os homens se apressavam mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer! De facto, muito se tem escrito e dito acerca desta temática, mas nunca se chega a consensos, pois tratando-se de algo do campo da ética, dificilmente existirão duas opiniões iguais. Algumas vezes existem cedências quando estamos perante crimes horrendos. Face a situações -limite, a justiça, seja ela Divina, ou terrena, parece-nos sempre insuficiente para reparar o dano. Então sucumbimos à tentação de pensar como seria bom podermos fazer mal a quem nos fez mal. Sim ... para além de tudo o mais, é atribuído um "doce sabor " à vingança ...
Texto publicado em Junho de 2007, na revista FLASH!
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