IDOLOS ...

 

Perante a morte do “Rei da Pop” – Michael Jackson, lembrei-me de recuperar este texto que escrevi em 2004, para a revista Flash…

 

Outrora perguntávamos às crianças o que queriam ser quando fossem grandes e ouvíamos, invariavelmente, a mesma resposta “médico”, ou “engenheiro” ou “advogado”. Estava socialmente instituído que o prestigio se encontrava directamente ligado a uma profissão reconhecida e respeitada. Subitamente tudo mudou. Agora, se fizermos a mesma pergunta, a resposta é muito mais vaga “quero ser famoso”.

 

Mas famoso por desempenhar que função ? Segue-se o silêncio. Se insistirmos muito, conseguiremos então perceber que as ambições dos jovens passam por ser futebolistas, elementos de boysband ou então estrelas de televisão. Para isso concorrem a todos os concursos que surgem por aí, nem que seja necessário estarem horas a fio à espera para uma inscrição.

 

Sujeitam-se até a humilhações porque tudo isso é remetido para segundo plano, já que o obsessão de vir a ser famoso ultrapassa o resto. De alguma maneira, alguns meios de comunicação conduziram as pessoas a pensar que a maneira de vencer na vida, ou ser alvo de reconhecimento, passa por ser famoso. Digamos que, de algum modo foi passada a ideia de que só é bom e competente quem aparece na televisão ou tem lugar cativo nas revistas.

 

Certo é que em algumas profissões, a visibilidade é fundamental, porque quem não aparece, esquece , o caso das profissões ligadas às artes, por exemplo, mas nas outras não é bem assim. Um dos efeitos da fama é a sensação de poder que ela sugere às pessoas. Afinal, ao longo da história humana a graduação de lideranças foi feita pelo valor do poder que determinada pessoa detinha em seus domínios. Mas ter fama é uma coisa, ter o estatuto de ídolo é outra. Qualquer pessoa pode ter fama, seja por bons ou maus motivos.

 

Para ser um ídolo é preciso ter carisma. È preciso ser reconhecido pelos outros como diferente. É preciso ter um ideal, deixar uma obra feita, ser admirado pelos seus pares. Duvido que Che Guevara ou Nelson Mandela tivessem, de modo consciente, perseguido a fama. Limitaram-se, isso sim, a seguir as suas convicções e sonhos, o que os transformou em ídolos para toda uma geração. Certo é que os ídolos que outrora moviam montanhas, estão hoje quase que remetidos ao esquecimento.

 

A maior parte dos jovens manifesta um total desinteresse por questões políticas, portanto os ídolos políticos pouco lhes tocam. Nas outras áreas, vão escasseando personalidades vincadas e obras que mereçam atenção especial. Por isso precisamos urgentemente de ídolos. De seres humanos, iguais a nós mas, ao mesmo tempo, diferentes, que nos transmitam valores, que nos encham de orgulho e façam desejar ser um pouquinho como eles.

 

Não será certamente através de concursos televisivos que lá chegaremos. Aliás, a realidade está à vista. Quem ainda se lembra  do nome dos vencedores dos sucessivos concursos televisivos ? Esta versão instantânea da fama é um processo perverso, porque começa e termina no mesmo instante.

 

Faz-me sempre lembrar aquelas experiências em que se vai buscar alguém a um sítio recôndito. Leva-se a pessoa ao cabeleireiro, veste-se com roupas bonitas, vai a bons restaurantes e dorme num óptimo hotel. No dia seguinte volta tudo ao normal e, pergunto eu, o que é que de positivo se acrescentou à vida dessa pessoa ? Nada! Apenas se aumentou a frustração. É que quem nunca viu o mar vive perfeitamente sem ele! Quem já teve a magnífica sensação de o contemplar, ou é ajudado por forma a poder manter essa possibilidade, ou então apenas lhes foi dado um presente envenenado !




[ ver mensagens anteriores ]


 


Adicione meu Blog
aos seus favoritos!




Visitante número:

 

Design Personalizado